22 octobre 2009
Prose poétique
Há sempre flores para um poeta
Estava o poeta sentado sob as árvores, numa mesa da avenida, a pensar na poluição, no correio atrasado para os amigos, no microscópio que prometera à filha se passasse, quando o empregado chegou com o copo de cerveja pedido : mais dez pauzitos que se vão à viola, pensou o poeta.
As pessoas das mesas ao redor, liam os jornais que falavam do Agostinho, dos hoquistas, das tantas misses das nossas tantas praias. O poeta não. O poeta estava triste. A pensar na poluição, no microscópio, nos dez paus da imperial.
E então, aconteceu : doce, docemente, uma, duas, três, muitas flores começaram a cair da árvore próxima e alunaram dentro do copo do poeta.
- Desculpe V. Exa que eu trago outro – acercou-se, amável, o empregado.
- Deixe ficar – pediu deslumbrado, o poeta.
E sorveu algumas rugas da vida no copo mais florido de todas as mesas da esplanada.
Eduardo OLÍMPIO, A Menina da Carreira de Manique. (Adaptação)
16 mars 2009
Poesia de São Tomé e Príncipe
Canção do Mestiço
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como l e l são 2.
Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
— mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.
Ah!
Mas eu não me danei ...
E muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor! ...
Mestiço!
Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...
1Poeta de São Tomé e Príncipe [1921-1963]


