Há sempre flores para um poeta

 

 Estava o poeta sentado sob as árvores, numa mesa da avenida, a pensar na poluição, no correio atrasado para os amigos, no microscópio que prometera à filha se passasse, quando o empregado chegou com o copo de cerveja pedido : mais dez pauzitos que se vão à viola, pensou o poeta.

 As pessoas das mesas ao redor, liam os jornais que falavam do Agostinho, dos hoquistas, das tantas misses das nossas tantas praias. O poeta não. O poeta estava triste. A pensar na poluição, no microscópio, nos dez paus da imperial.

 E então, aconteceu : doce, docemente, uma, duas, três, muitas flores começaram a cair da árvore próxima e alunaram dentro do copo do poeta.

 - Desculpe V. Exa que eu trago outro – acercou-se, amável, o empregado.

 - Deixe ficar – pediu deslumbrado, o poeta.

 E sorveu algumas rugas da vida no copo mais florido de todas as mesas da esplanada.

 

Eduardo OLÍMPIO, A Menina da Carreira de Manique. (Adaptação)