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Enseignement du Portugais au Collège et au Lycée. Matériel pédagogique. Ressources.

27 juin 2006

História do Brasil, Cassiano Ricardo. Brasil, século XX

História do Brasil

Então o Brasil-menino

rabiscou no seu caderno

de figuras esta história

do seu destino :

                       (a lápis vermelho)

primeiro a manhã indígena

saiu da montanha espessa

trazendo um cocar vermelho

sobre a cabeça ;

                        (a giz branco)

depois o dia marítimo

das velhas naus portuguesas

saltou de dentro das ondas

qual pássaro branco

ruflando a asa enorme

das velas retesas ;

                         (a carvão)

E a noite africana por último,

que chegou amarrada

no porão do navio

com os seus orixás,

com os seus amuletos,

e que veio pra terra

trazida nos ombros

dos pretos...

Cassiano Ricardo

Poesia para a Infância

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23 juin 2006

Dedicatória em forma de sumário de Thomaz de Mello. Portugal, século XX

Dedicatória em forma de sumário

Lisboa

Dos meus amores.

Das Feiras.

Dos arredores.

Dos pregões.

Das procissões.

Dos Santos.

De Santo António.

Do cravo de papel,

Dos fados e das canções,

Das cantigas populares,

Das igrejas,

Dos jardins,

Das palmeiras,

Das escadas e das grades,

Dos telhados misturados

De idade tão diferentes,

Do cheiro de manjerico,

Da roupa dependurada

Como bandeiras em festa.

Dos vasos de sardinheiras

Em mansardas e janelas,

Dos becos e das vielas,

Dos cravos e das tabernas,

Da salada e da sardinha.

Das casas tão esquisitas,

E das outras tão bonitas,

Todas vestidas de chita,

Das cores mais variadas.

Lisboa

Dos namorados

Dos soldados, dos marujos,

Das varinas e dos gatos,

Da castanha e dos pinhões...

Das fontes e dos palácios;

Das ruas que não são más,

Dos poetas.

Dos pintores.

Do Tejo.

Dos pescadores.

Das fragatas e das velas

Das barcaças da ribeira.

Lisboa

Das colinas que são sete

Como os pecados mortais.

Dos pombos e das gaivotas.

Dos canários nas gaiolas.

Dos pardais

E dos garotos.

Do céu azul muito azul,

Dos azulejos azuis

Que até às vezes não são.

Das cores

Das muitas cores

Do sol muito amarelinho,

Das luas e das marés,

Das caravelas de outrora.

Da SAUDADE

E dos Amores,

Do coração,

Dos Meus Olhos.

Thomaz de Mello

Lisboa de Chita

, (1932)

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Você é um homem de Graciliano Ramos. Brasil, século XX

VOCÊ É UM HOMEM

— Fabiano, você é um homem — exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem : era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho. queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos ; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Olhou em torno, com receio de que. fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando :

—Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

—Um bicho, Fabiano.

Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos. sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.

Agora Fabiano era vaqueiro. e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou os quipás, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso. era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra. Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco.

Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia ! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu-errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que se demorava de mais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite.

Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se :

—Você é um bicho, Baleia.

Graciliano RAMOS Vidas Secas, (l938)

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Ladainha de Cassiano Ricardo. Brasil, século XX

LADAINHA

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome

de ilha de Vera Cruz

Ilha cheia de graça

Ilha cheia de pássaros

Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia

mulheres morenas e nuas

anhangás a sonhar com histórias de luas

e cantos bárbaros de pajés em pocarés batendo os pés.

Depois mudaram-lhe o nome

prá terra de Santa Cruz

Ilha cheia de graça

Ilha cheia de pássaros

Ilha cheia de luz.

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de

tanga e onças ruivas deitadas à sombra das

árvores mosqueadas de sol.

Mas como houvesse, em abundância,

certa madeira cor de sangue cor de brasa

e como o fogo da manhã selvagem

fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,

e como a terra fosse de árvores vermelhas

e se houvesse mostrado assaz gentil,

deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça

Brasil cheio de pássaros

Brasil cheio de luz.

Cassiano Ricardo

Martim Cererê, 1928

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22 juin 2006

O Infante de Fernando Pessoa. Portugal, século XX

Infante_D.doc

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E, viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nos em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal.

Fernando Pessoa

Mensagem (1920) Ediçoes Atica

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Cabarets de José Gomes Ferreira. Portugal, século XX

CABARETS

Na semana passada, certo inglês, de passagem rápida por Lisboa quase me implorou, farto do Idêntico em toda a parte :

- Mostre-me qualquer coisa que não exista noutro país. Há?

Meditei meio segundo e respondi, telegráfico:

- Há. "Cabarets".

O senhor estrangeiro encolheu os ombros em trejeito de desdém. Mas eu teimei :

- Sim, "Cabarets"... "Cabarets" estranhos, ao contrário, de pernas para o ar, sem "jazz" nem pretos de dentes brancos a soprarem gargalhadas nos saxofones. "Cabarets" do avesso em que não se encontram mulheres de riso fatal a dançarem ao som macabro do estalar das rolhas das garrafas de champanhe. Autênticas Casas de sofrer — onde se servem indigestões de mariscos e bebidas tristíssimas — construídas de propósito para pessoas, com fumos de luto nas mangas, que pretendem chorar em público sem medo do ridículo. "Cabarets" — válvulas-de-escape. em suma... Venha comigo e verá.

Tomámos um taxi, descemos numa viela sonâmbula, abrimos a porta de vidro em frente e pisámos com reverência o veludo do tapete de cascas de tremoços do Salão de Fados em que duas dezenas de seres, palidamente diluídos no rumor das vozes em surdina, se preparavam para sofrer em comum.

Ambiente de bicos de pés. Os criados deslizavam, irreais, com sapatos de fantasmas, para não perturbarem a dor dos clientes que. de cabeça pesada entre as mãos, parafusavam neste tema de meditação irresolúvel : "A vida é uma chatice !" [...]

la começar a função. No estrado alinhavam-se duas cadeiras à espéra do viola e do guitarrista que entraram pouco depois em ritmo de enterro. 0 cantor também não tardou a surgir no catafalco, mancha negra dos cabelos até aos sapatos, solenidade de telegrama de pêsames, lívido, suado, sinceramente infeliz, cara de serenata à meia-noite a noivas mortas...

Houve um sussurro espectral. Os ouvintes ajeitaram-se o melhor possível nos assentos para sofrerem com comodidade.

José Gomes Ferreira, O Irreal Quotidiano (1971)

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21 juin 2006

Desaparecimento de Marcelo Rubens Paiva. Brasil século XX

DESAPARECIMENTO

Minha mãe é dessas figuras fortíssimas, que transmite uma segurança incrível. 0 que minha mãe já passou na vida a fez ter essa cara de segurança em qualquer momento trágico. Você já imaginou uma mãe de cinco crianças ter a sua casa invadida por soldados armados com metralhadoras, levarem seu marido sem nenhuma explicação e desaparecerem com ele ? Já imaginou essa mãe também ser presa no dia seguinte, com sua filha de quinze anos, sem nenhuma explicação ? Ser torturada psicologicamente e depois ser solta sem nenhuma acusação ? Já imaginou essa mãe, depois, pedir explicações aos militares e eles afirmarem que ela nunca fora presa e que seu marido não estava preso ? Procurar por dois anos, sem saber se ele estava vivo ou morto. Ter que, aos quarenta anos de idade, trabalhar para dar de comer a seus filhos, sem saber se ainda era casada ou viúva. É duro, né ? Nem Kafka teria pensado em tamanho absurdo. Fora as informações de que :

  - Seu marido está em Fernando de Noronha. Eu mesmo o levei até lá.

  - Está preso no Xingu e passando bem.

  - Está internado num hospício como indigente.

  - Está, exilado no Uruguai esperando um momento melhor pra voltar.

 Ou então ler declarações de um general supostamente responsável pela prisão do meu pai :

  - Pergunte à mulher dele onde ele está, que ela sabe melhor que a gente.

Mais absurdo ainda foi o que uma testemunha, que também fora presa, contou, muito tempo depois :

- Seu marido foi espancado na minha frente até cair no chão numa poça de sangue.

A conclusão é de que seria difícil ele estar vivo depois de passar pelas mãos das nossas heróicas "Forças Armadas".Essa é mais ou menos a história da minha mãe.

Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho, São Paulo - Brasil, 1982

Comemoração dos 25 anos de publicação do livro : entrevista do autor

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Café-expresso de Cassiano Ricardo. Brasil, século XX

Café-expresso

Café expresso – está escrito na porta.

Entro com muita pressa. Meio tonto,

por haver acordado tão cedo.

E pronto ! parece um brinquedo:

cai o café na xícara pra gente

        Maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de S. Paulo

nesta pequena noite líquida e cheirosa

que é a minha xícara de café.

A minha xícara de café

é o resumo de todas as coisa que vi na fazenda e me vêm à memória apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da estrada...

Na minha memória posou um pinhé a gritar : crapinhé !

         E passam uns homens

         que levam às costas

         jacás multicore

         com grãos de café.

E piscam lá dentre, no fundo do meu coração,

uns olhos negros de cabocla maliciosa a olhar para mim

com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...

Um cuitelinho verde a sussurrar enfiando o bico na catléia cor de sol que floriu no portão...

E o f azendeiro a calcular a safra do espigo...

         Mas acima de tudo

aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim

         como dois grandes pingos de café

         que caíram dentro da alma 

         e me deixaram pensativo assim...

Mas eu não tenho tempo pra pensar nestas coisas !

Estou com pressa. Muita pressa !

A manhã já desceu do trigésimo andar

daquele arranha-céu colorido onde mora.

Ouço a vida gritando lá fora !

Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.

Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.

Compro um jornal. O Estado ! O Diário Nacional !

Levantando a gola do sobretudo, por causa do frio.

E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu S. Paulo !

ó minha uiara de cabelo vermelho !

ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo !

Cassiano Ricardo (1895-1974)

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Era uma vez três irmãs, Jorge Amado. Brasil, século xx

Era uma vez três irmãs. 

Era uma vez três irmãs: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas correrias, unidas nas gargalhadas Lúcia, a das negras tranças. Violeta, a dos olhos mortos; Maria, a mais moça das três. Era uma vez três irmãs, unidas no seu destino. 

Cortaram as tranças de Lúcia, cresceram seus seios redondos, suas coxas como colunas, morenas,  cor de canela. Veio o patrão e a levou. Leito de cedro e penas, travesseiro, cobertores. Era uma vez três irmãs. 

Violeta abriu os olhos. seus seios eram pontudos, grandes nádegas em flor, ondas no caminhar. Veio o feitor e a levou. Cama de ferro e de crina, lençois e a Virgem Maria. Era uma vez três irmãs. 

Maria, a mais moça das três, de seios bem pequeninos, de ventre liso e macio. Veio o patrão, não a quis. Veio o feitor, não a levou. Por último veio Pedro, trabalhador da fazenda. Cama de couro de vaca, sem lençol, sem cobertor, nem de cedro, nem de penas. Maria com seu amor. 

" Era uma vez três irmás: Maria, Lúcia, Violeta, unidas nas gargalhadas, unidas nas correrias. Lúcia com seu patrão, Violeta com seu feitor e Maria com seu amor. Era uma vez três irmãs. diversas no seu destino. 

Cresceram as tranças de Lúcia, caíram seus seios redondos, suas coxas como colunas, marcadas de roxas marcas. Num auto pela estrada cadê o patrão que se foi? Levou a cama de cedro, travesseiros. cobertores. Era uma vez três irmãs. 

->Fechou os olhos Violeta com medo de olhar em torno; seus seios bambos de pele, um filho pra amamentar. No seu cavalo alazão, o feicor partiu um dia. nunca mais há-de voltar. Cama de ferro se foi. Era uma vez três irmãs. 

Maria, a mais moça das três, foi com seu homem "pro" campo. prás plantações de cacau Voltou do campo, era a mais velha das três. Pedro partiu urn dia, não era patrão nem feitor. partiu num pobre caixão, deixou a cama de couro e Maria sem.seu amor. Era uma vez três irmãs. 

Cadê as tranças de Lucia, os seios de Violeca, cadê o amor de Maria ? 

Era uma vez três irmãs numa casa de putas pobres. Unidas no sofrimento, unidas no desespero, Maria, Lúcia, Violeta, unidas no seu destino. 

Jorge Amado (1912-2001)- Terras do sem fim, 1942. 

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